Estratégia Chinesa: além da Arte da Guerra

Conheça outra grande referência em estratégia chinesa, além do conhecido “Arte da Guerra”

A cultura chinesa é extremamente rica e possui várias facetas que se descortinam frente ao estudioso. Uma dessas facetas intrigantes é representada pela estratégia, tida em grande importância na China antiga através de dois dos mais famosos clássicos: “A Arte da Guerra” e “36 Estratégias”.

Estratégia
A influência mais clara do I Ching está na elaboração de estratégias. Através de seus textos e idéias, não poucos generais chineses lhe deveram suas vitórias. Vemos reflexos de seus conceitos em diversos clássicos militares chineses,
A obra A Arte da Guerra (Sunzi Bin Fa), atribuída a Sunzi [Sun Tzu] por volta do século IV a.C., é muito difundida hoje em dia, especialmente entre executivos e empresários. Suas estratégias simples e eficientes declaradas em apenas 13 capítulos curtos, podem ser interpretadas e aplicadas nas mais diversas situações. A sua filosofia básica se fundamenta na utilização de conceitos taoístas como o Yin/Yang. O Capítulo VI, por exemplo, possui como título “O Cheio e o Vazio”, em tradução literal, que evoca a alternância Yin/Yang e sua relação de oposição e relacionamento (quando o Yang atinge sua plenitude, se torna Yin e vice-versa). Na área militar (incluindo artes marciais), ataca-se quando se está “cheio” e recua-se quando se está “vazio”. Ataca-se o inimigo quando ele está “vazio” e aguarda-se quando ele está “cheio”. Nas palavras de Mestre Sun:

Quando o inimigo está tranqüilo, esgota-o; quando bem alimentado, faze-o definhar; quando em repouso, obriga-o a mover-se.
Apresenta-te nos locais para onde ele corre; movimenta-te celeremente quando ele não te espera.

Os 36 Estratagemas
Outra obra muito importante mas ainda pouco conhecida dos brasileiros é o 36 Estratégias, um apanhado de táticas e truques para enganar o inimigo e vencê-lo. As primeiras menções às 36 estratégias apareceram na Dinastia Qi do Sul (479-502) e se popularizaram por volta da segunda metade do século XVII, quando se reuniu os estratagemas em um único livro intitulado A Arte Secreta da Guerra: 36 Estratégias. O sinólogo suíço Harro Von Senger atribui o número “36” ao simbolismo das linhas Yin do I Ching: reclusa, retraída, obscura. Esta seria uma boa descrição das técnicas estratégicas, que se baseiam basicamente em enganar o inimigo. Segundo ele, o “36” seria o número 6, correspondente à linha Yin, ao quadrado.

Cada estratagema é formado por algumas curtas linhas, cheias de significado. Assim como a maioria dos clássicos chineses, ele é pequeno, compacto, sintético e ao mesmo tempo um abismo interminável de conhecimento. A relação completa dos 36 estratagemas é o que segue:

1 – Enganar o céu para cruzar o oceano.
2 – Cercar Wei para salvar Zhao.
3 – Matar com uma faca emprestada.
4 – Fazer seu inimigo trabalhar enquanto você espera no ócio.
5 – Roubar a casa em chamas.
6 – Clamor ao leste e ataque ao oeste.
7 – Criar algo do nada.
8 – Secretamente usar a passagem de Chen Chang.
9 – Observar o fogo que queima do outro lado do rio.
10 – Esconder a faca atrás de um sorriso.
11 – Deixar morrer a ameixeira em favor do pessegueiro.
12 – Aproveitar a oportunidade para roubar uma cabra.
13 – Bater na grama para perturbar a cobra.
14 – Levantar um cadáver dentre os mortos.
15 – Fazer o tigre descer a montanha.
16 – Para pegar é preciso largar.
17 – Usar um tijolo para pegar a peça de jade.
18 – Para pegar os bandidos, pegar seu chefe.
19 – Remover a lenha debaixo do caldeirão.
20 – Pescar em águas turbulentas.
21 – Desprender-se da casca da cigarra.
22 – Fechar a porta para pegar o ladrão.
23 – Aliar-se a um reino distante para atacar um vizinho.
24 – Obter um caminho seguro para atacar o Reino de Guo.
25 – Trocar vigas e pilares por madeiramento podre.
26 – Matar o frango para assustar o macaco.
27 – Fingir ser o porco para comer o tigre.
28 – Remover a escada após ter subido.
29 – Cobrir a árvore com uma falsa florada.
30 – Fazer o anfitrião e o convidado trocarem de lugar.
31 – A armadilha da beleza.
32 – A cidade vazia.
33 – Deixe o espião inimigo semear a discórdia em seu próprio campo.
34 – Infringir dano a si mesmo para ganhar a confiança do inimigo.
35 – Encadear juntos os barcos inimigos (encadear estratagemas).
36 – Retirar-se.

O primeiro estratagema, por exemplo, “Enganar o céu para cruzar o oceano“, nos remete ao engôdo das forças inimigas através de alarmes falsos ou outro modo de se obrigá-lo a achar que está indo em uma direção e subitamente acabar indo em outra. Exemplos: Conta-se que em 589 o reino chinês de Sui quis conquistar outro, o reino de Chen. Para isso ele movimentava as tropas até a fronteira, deixando o inimigo em alerta máximo, e se retirava. Fez isso repetidas vezes, até que o inimigo não mais acreditava nessa manobra. Quando o povo de Chen começou a pensar assim, Sui movimentou suas tropas de verdade e conquistou o seu objetivo. Vemos isso em nossa política atual: cada hora o Presidente Lula apresenta um possível candidato para seu cargo em 2010. Pode acreditar que, quando menos se espera, o verdadeiro candidato irá aparecer. E surpreender a todos.

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Gilberto Antônio Silva é Escritor, Terapeuta e Jornalista. Como Taoista, atua amplamente na pesquisa e divulgação desta fantástica cultura chinesa através de cursos, palestras e artigos. É autor de 14 livros, a maioria sobre cultura oriental e Taoismo. Site: www.laoshan.com.br

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