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O Taoísta é Vegetariano?
O Taoísta é Vegetariano?
Muito se fala sobre o vegetarianismo no Taoísmo, inclusive que, genericamente, os taoístas SÃO vegetarianos. Isso não é verdade. Esse texto se destina a mostrar a verdade dos fatos e a opção que pode ser exercida livremente pelos cultuadortes do Caminho.

Citando:
“Governar um grande reino é como cozinhar um pequeno peixe”
Tao Te Ching, 60

O Taoísmo é uma filosofia/religião bastante liberal em tudo, incluindo alimentação. Taoístas em geral comem carne normalmente, exceto em algumas ordens monásticas ou em determinadas situações. O vegetarianismo apareceu na religião taoísta tardiamente, na Dinastia Tang, sob influência do Budismo Mahayana. As referências sobre o Taoísmo ser majoritariamente vegetariano são encontradas apenas em material de propaganda vegetariano, para quem todo mundo de importância no Universo era vegetariano (ou tinha que ser). Para estes, qualquer passagem do Tao Te Ching é um pretexto para mostrar que os Taoístas devem ser vegetarianos...

Por aí encontramos toda sorte de lixo, como um site que afirmava que “Laocius” (latinizaram o nome Lao-Tzu) havia reintroduzido o Tao para o povo chinês e que Confucius havia se tornado vegetariano “depois de receber o Tao, O Caminho do Profeta”. Caramba, que confusão! É interessante que muitos sites que dizem este tipo de bobagem citam outros sites vegetarianos que citam outros sites vegetarianos. Referências chinesas, nenhuma.

Eu, como taoísta, não vejo problemas no consumo de carne. Existem muitos taoístas que são vegetarianos e muitos outros que comem carne. Não existe uma regra geral

Para se falar sobre alimentação taoísta tradicional, ninguém melhor que John Blofeld, escritor inglês que perambulou pela China na primeira metade do século XX estudando o Budismo e o Taoísmo. Em seus livros ele relata inúmeros encontros com Mestres e hospedagens em comunidades taoístas. E sempre serviram carne, além de um bom copo de vinho de arroz. Somos muito liberais neste aspecto!
Segundo ele, em seu livro O Portal da Sabedoria:

Citando:
A principal regra para a dieta dos adeptos do Taoísmo (assim como de todo tipo de pessoas que se dedicam seriamente à meditação) é comer moderadamente. As comunidades taoístas que visitei na China alimentavam--se bem, quando tinham recursos, mas sempre frugalmente. No Sul, o arroz era o alimento principal; no Norte ele era substituído pelo trigo ou por outros cereais ingeridos em forma de mingau de aveia, pão e talharim. Os pratos que acompanhavam esses alimentos básicos consistiam principalmen-te em vegetais cozidos com queijo de soja (tofu) e um pouco de carne, aves domésticas ou peixe, temperados com produtos colhidos localmente nas montanhas: cogumelos, brotos de bambu, orelhas-de-árvore (um deli-cioso tipo de fungo), ervas, castanhas d'água, bagas, nozes e frutos. Nenhum alimento era especialmente proibido mas, desde que muitos dos reclusos eram versados na medicina tradicional chinesa, tinham conhecimento sobre o tipo de alimentos que eram nutritivos e os que deviam ser evitados ou consumidos frugalmente. Nada em sua filosofia os dissuadia de provar pratos saborosos e beber um pouco de vinho ou bebida alcóolica à hora das refeições; entretanto, entre os objetivos de seu regime iogue constava o de viver até uma idade avançada com uma saúde perfeita e um vigor relativa-mente jovem. Por conseguinte, cuidavam de evitar excessos na alimentação e na bebida, bem como em todo o restante, para assegurar uma dieta leve e nutritiva. Alimentos dispendiosos ou trazidos com dificuldade de lugares longínquos eram de todo evitados.
Aos adeptos ocidentais recomenda-se alimentarem-se com simplici-dade e evitarem refeições pesadas, mas sem se oporem puritanamente a uma cozinha saborosa. Ascetismo rígido ou abusos, ambos significam um afasta-mento do Caminho, assim como a preocupação excessiva com o que comer e com o que não comer, tão comum atualmente na Califórnia, pois a preo-cupação leva à ansiedade, tão prejudicial à saúde física e mental como um veneno lento. O Taoísmo inculca uma atitude de desprendimento em relação a todas as coisas.


Vemos então que os Taoístas em geral seguem com uma maior atenção é a Medicina Tradicional Chinesa, que não proíbe carne, mas veremos isso com mais detalhes quando falarmos sobre saúde. Também as quantidades é que são limitadas, sendo a alimentação frugal um dos ensinamentos taoístas.

Existem determinadas festividades, rituais ou cerimônias em que algum alimento é banido, seja carne, álcool ou mesmo alguns tipos de vegetais como alho e cebola (note a influência budista). O 5º dia do Ano Novo Lunar, por exemplo, é conhecido como “Dia do Boi” e normalmente não se consome carne de boi nem qualquer coisa referente ao animal.

O Capítulo 4 de Chuang-Tzu disserta sobre a relação entre a sabedoria e o mundo material, e usa a figura de Confúcio para isso. Falando sobre jejum, podemos ler:

Citando:
Yen Hui perguntou:
- Minha família é pobre, e passamos longos meses sem beber vinho ou comer carne. Isso pode ser considerado jejum?
Confúcio respondeu:
- Este é o tipo de jejum que se faz para rituais religiosos, não é o jejum mental.


O Taoísmo religioso pode ser dividido em duas correntes principais: o Zhengyi e o Quanzhen, cada uma delas com diversas ramificações. Os arquivos do Templo da Nuvem Branca, em Beijing, mostram que em 1926 havia 86 ramos do Taoísmo registrados, fora o que não existia oficialmente, como grupos de reclusos espalhados pelo território chinês..

Mas das duas ramificações principais, o Zhengyi aceita álcool e carne e o Quanzhen adota o vegetarianismo e o celibato, bem como a vida em mosteiros. É uma linha que absorveu muitas características do Budismo Mahayana e algo do Confucionismo. Então não se pode dizer que os taoístas, de modo geral, são vegetarianos.

Infelizmente vemos um monte de besteiras na internet sobre isso, muitas vezes em sites pró-vegetarianismo, que só depõe contra esse modo de vida. Não é inventando histórias que se convencem as pessoas a mudar seu modo de vida. Já vi um autor dizer que Lao-tzu era vegetariano, o que é uma mentira absurda. Lao-tzu não se importava com essas restrições, ao contrário, pois segundo Chuang-Tzu ele foi repreendido por Confúcio por estar bebendo vinho em um bar, além da conta (como sabemos, Confúcio não recusava vinho, desde que em certas medidas). O Velho Sábio retrucou, afirmando que a mesa, o banco em que estava sentado, o copo e o vinho estavam imersos no Tao. Restrições muito severas contrariam o desenvolvimento do Caminho. Se alguém quiser ser vegetariano, se sentir melhor assim, é livre para sê-lo. Caso contrário, não é obrigado a adotar nenhum tipo de vida diferente daquela que leva. O Caminho está presente em nosso dia-a-dia. O Taoísmo é a filosofia de vida que mais preza a liberdade individual.

Já conheci Mestres vegetarianos, onívoros ou que comiam apenas algum tipo de carne. Nenhum deles era menos espiritualista que o outro.

Dentro do I Ching, o Livro das Mutações, escrito há mais de 3.000 anos e que é uma das bases do Taoísmo, vemos que o Hexagrama 21 faz várias analogias com carne, como “morder carne dura” e “morder carne macia”. Nenhum vegetariano usaria este tipo de conotação!

Ainda dentro da obra de Chuang-tzu, ressaltamos o capítulo 28, segundo a tradução de James Legge, que mostra Confúcio em extrema pobreza e miséria, passando sete dias sem cozinhar carne e comendo apenas uma sopa de verduras com algum arroz. Acho que não precisa de mais explicações sobre a importância da carne para os chineses.

O mesmo autor narra outra história, no Capítulo 3, na qual se encontra o perfeito cultuador do Caminho em um açougueiro, mestre cozinheiro! Sua habilidade em trinchar uma carcaça sem cegar a lâmina da faca vem do fato de seguir a natureza e usar o vazio para alcançar seu propósito sem esforço. Um açougueiro como Homem do Tao!

Citando:
O mestre cozinheiro do Príncipe Wen-hui esquartejava um boi. Os golpes do braço, o impulso dos ombros, o movimento de pés, o endireitar dos joelhos e o movimento da faca a zunir compunham-se como se estivesse na dança do Bosque das Amoras ou a tocar a música de Ching-shou.

"Ei! Formidável! Como alcançaste tanta perfeição na tua arte?" - perguntou o Príncipe.

O cozinheiro pousou o seu cutelo e disse, "Aquilo de que cuido nisto é mais elevado que a arte, é o Tao. Ao princípio, quando comecei a cortar bois, o que eu via era mesmo o boi. Passados três anos já não via o boi todo e agora trabalho mais com o espírito do que com os olhos. Os sentidos e o discorrer suspendem-se para o espírito trabalhar à vontade. Sigo a estrutura natural do boi. Puxo para o lado os grandes tendões e continuo ao longo das grandes aberturas, de acordo com o corpo do animal. Assim nunca corto ligações nem tendões e muito menos os ossos principais. Um bom cozinheiro adquire um cutelo novo todos os anos. E isto porque o utiliza para cortar. Um cozinheiro fraco adquire um cutelo todos os meses. E isto porque trucida. Mas este cutelo do vosso humilde servo está em uso há dezenove anos. Talhou alguns milhares de bois, mas tem um fio tão suave como se acabasse de sair da pedra de amolar. O fio do cutelo não tem qualquer espessura e há espaço nas articulações. Como opero nos ocos tenho espaço à vontade para trabalhar. É por isto que apesar de estar em uso há dezenove anos o cutelo parece acabado de sair da pedra de amolar. Mas se aparece um sítio mais intrincado avalio as dificuldades, olho com atenção, suspendo a respiração e trabalho com cuidado, muito devagar. O cutelo vai-se movendo subtilmente até que, de repente, a peça se desarticula como um bocado de terra a espalhar-se pelo chão. Ainda a segurar o cutelo endireito-me satisfeito e, sem vontade de me mexer, olho em redor para me distrair. Depois limpo e arrumo o instrumento."

"Ótimo!" - exclamou o Senhor Wen-hui - "Ouço as palavras do mestre cozinheiro e acabo por aprender como cuidar da vida."


Uma curiosidade interessante é que a tradicional revista “Hinduism Today”, editada no Havaí há 30 anos, solicitou a todos os leitores, em 2006, informações sobre vegetarianismo no Taoísmo e no Confucionismo para elaboração de uma matéria, pois eles não conseguiam referências sobre isso. A matéria foi publicada em 2007: “Vegetarianism and Meat-Eating in 8 Religions” (Vegetarianismo e consumo de carne em 8 religiões). Nenhuma delas era Taoísmo ou Confucionismo. Eles não conseguiram referências suficientes sobre isso.

NOTA: Esse texto foi extraído do ebook "Vegetarianismo: Opção ou Obrigação?" que pode ser baixado gratuitamente no site http://www.longevidade.net.


SOBRE O AUTOR _____
Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Acupuntor, Terapeuta e Escritor, estudando cultura e filosofia oriental desde 1977. Como Taoísta, se preocupa em divulgar a filosofia e as artes taoístas, como I Ching, Feng Shui e Chi Kung, para melhoria da qualidade de vida das pessoas._________________________
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